quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O edifício

Eisner, Will. O edifício. Editora Abril; São Paulo / SP; 1987.
 
Breve relato do autor:
 
Will Eisner foi um famoso e renomado quadrinista americano, que durante seus mais de 70 anos de carreira, atuou em diversas áreas que incluem como desenhista, roteirista, arte-finalista, editor, cartunista, empresário e publicitário.
 
Dados da obra:
 
O edifício é uma metáfora sobre a própria vida. As trajetórias de quatro personagens – Monroe Mensh, Gilda Green, Antonio Tonatti e P.J. Hammond – se misturam com a existência de um determinado edifício localizado em Nova York. O enredo fala dos dramas, desilusões e anseios desses personagens.
 
Passagens:
 
Depois de muitos anos vivendo numa cidade grande, gradualmente desenvolvemos um senso de assombro. Isto porque muito do que acontece ao nosso redor é inexplicável e, ao mesmo tempo, mágico. Enquanto eu crescia em meio à turbulência da vida urbana, era preciso apenas um estado de alerta superficial para enfrentar o ritmo das mudanças e experiências que se desenrolavam. Havia pouco tempo para questionar a rápida substituição de pessoas e de edifícios.
Tais coisas deviam ser aceitas como normais. À medida que fui envelhecendo e acumulando recordações, passei a me sensibilizar mais e mais com o desaparecimento de pessoas e referências urbanas. Para mim, eram especialmente perturbadoras as inexplicáveis demolições de prédios. Eu sentia como se, de alguma forma, eles tivessem alma.
Agora, estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas de lágrimas são mais do que edifícios inertes. É impossível pensar que, ao fazerem parte da vida, não tenham absorvido as radiações provenientes da interação humana.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Antes de nascer o mundo

Couto, Mia. Antes de nascer o mundo. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2009; 277 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Mia Couto nasceu em Moçambique. Estudou medicina antes de se formar em biologia. Atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra; em 2007, o prêmio União Latina de Literatura Românicas.
 
Dados da obra:
 
Esgueirando-se entre o sonho e a realidade, entre a prosa e a poesia, Antes de nascer o mundo retrata uma realidade de dimensões míticas na qual os homens de alguma forma conseguem superar o desespero e resgatar uma esperança que resiste à voragem da terra e da história.
 
Passagens:
 
A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.
 
... Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
 
O tal camião – a nova Arca de Noé – chegou ao destino, mas desfaleceu para sempre, à porta daquilo que viria a ser a nossa casa. Ali apodreceu, ali se converteu no meu favorito brinquedo, meu refúgio de sonhar. Sentado ao volante da falecida máquina, eu podia ter inventado viagens infinitas, vencido distâncias e cercos. Como faria outra qualquer criança, poderia ter dado a volta ao planeta, até que o universo inteiro me obedecesse. Mas isso nunca sucedeu: o meu sonho não aprendera a viajar. Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares.
 
– Mas, pai, nos conte. Como faleceu o mundo?
– Na verdade, já não me lembro.
– Mas o Tio Aproximado.
– O Tio conta muita história...
– Então, pai, nos conte o senhor.
– O caso foi o seguinte: o mundo acabou mesmo antes do fim do mundo.
Terminara o universo sem espetáculo, sem rasgão nem clarão. Por definhamento, exaurido em desespero. E assim, vagamente, meu pai derivava sobre a extinção do cosmos. Primeiro, começaram a morrer os lugares-fêmeas: as nascentes, as praias, as lagoas. Depois, morreram os lugares-machos: os povoados, os caminhos, os portos.
Sobreviveu apenas este lugar. É aqui que vivemos de vez.
 
Silvestre fez de conta que não escutou e, impassível, prosseguiu:
– Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer.
 
Mais um passo atrás e Ntunzi se desamparou num abismo e ainda hoje ele está tombando, tombando, tombando. Para meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
– Mulheres são como as ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.
 
... E me falaram, então, do que havia sucedido no dia em que minha mãe fora a enterrar. “Enterrar” é apenas um modo de dizer. Afinal, nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe.
  
Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca.
 
– Nós, mulheres. Por que aceitamos tanto, tudo?
– Porque temos medo.
O nosso medo maior é o da solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de deixar de ser mulher. Ou se converte, para tranquilidade de todos, numa outra coisa: numa louca, numa velha, numa feiticeira. Ou, como diria Silvestre numa puta. Tudo menos mulher. Foi isto que eu disse a Noci, neste mundo só somos alguém se formos esposa. É o que agora sou, mesmo sendo viúva. Sou a esposa de um morto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A peste

Camus, Albert. A peste. Editora Record. Rio de Janeiro / RJ; 1947; 269 páginas.
 
Breve relato do autor:

Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

Dados da obra:

A Peste é considerada a obra máxima de Albert Camus. Publicada 1947, conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a uma peste que assola a cidade de Oran, na Argélia. Questiona diversos assuntos relacionados a natureza do destino e da condição humana. Os personagens do livro ajudam a mostrar os efeitos que o flagelo causa na sociedade.

Passagens:

Dir-se-á sem dúvida que nada disso é peculiar à nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem da manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeita que exista mais alguma coisa. Isso em geral não lhes modifica a vida simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente moderna. Não é necessário, portanto, define a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoravam rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Também isso não é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.

Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidadãos; é necessário compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria idiota! E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós.
 
... E uma tranquilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase sempre esforço as velhas imagens de flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos, os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos; os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspenso por ganchos; o carnaval dos médicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda a parte e sempre cheios dos gritos intermináveis dos homens...
 
Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Este próprio passado sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam – assim como a todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamos-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano faz viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campanha que, no entanto, se obstinava no silêncio.
 
Provavelmente, Jeanne tinha sofrido. Contudo, ficara: acontece que se sofre muito tempo sem saber. Os anos tinham passado. Mais tarde, ela partira. Na verdade, não partira só: “Gostei muito de você, mas agora estou cansada... Não me sinto feliz por partir, mas não é necessário ser feliz para recomeçar.”
 
... O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus, e na verdade a questão não é essa. Mas ignoram mais ou menos e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.
 
... Sem memória e sem esperança, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo a amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.
 
Durante alguns minutos, avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo, libertados enfim da cidade e da peste. Rieux foi o primeiro a parar e voltaram lentamente, a não ser num momento em que entraram numa corrente gelada sem nada dizerem, ambos aceleraram os movimentos fustigados por esta surpresa do mar. Novamente vestidos, partir, sem terem pronunciado uma palavra. Mas entendiam-se, era suave a lembrança dessa noite. Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar.
 
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a Peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cândido ou o otimismo

Voltaire. Cândido ou o otimismo. Peguim Classics Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2011; 179 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Voltaire foi um escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês. Conhecido pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, inclusive liberdade religiosa e livre comércio.
 
Dados da obra:
 
É um conto filosófico em tom de sátira publicado pela primeira vez em 1759 e que narra a história de um jovem, Cândido, vivendo num paraíso edênico e recebendo ensinamentos do otimismo de Leibniz através de seu mentor, Pangloss. A obra retrata a abrupta interrupção deste estilo de vida quando Cândido se desilude ao testemunhar e experimentar eminentes dificuldades no mundo.
 
Passagens:
 
“Está demonstrado”, dizia ele, “que as coisas não podem ser de outro jeito: pois tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente pra o melhor fim. Notem que os narizes foram feitos para carregar óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para usar calças, e nós temos calças. As pedras foram formadas para ser tralhadas e para fazer castelos; assim meu senhor tem um belíssimo castelo; o maior barão da província deve ser o mais bem alojado; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porcos durante o ano todo; por conseguinte, aqueles que afirmaram que tudo está bem disseram uma bobagem; era preciso dizer que tudo está o melhor”.
 
 “Quê? Não tendes monges que ensinam, que disputam, que governam, que intrigam e que mandam queimar as pessoas que não compartilham as suas opiniões?” “Era preciso que fôssemos loucos”, disse o ancião. “Aqui somos todos da mesma opinião, e não entendemos o que nos dizeis com os vossos monges.” Cândido, com todos esses discursos, permanecia em êxtase, e dizia consigo mesmo: “Isto aqui é bem diferente da Westfália e do castelo do senhor barão: se o nosso amigo Pangloss tivesse visto o Eldorado, nunca mais teria dito que o castelo de Thunder-tem-tronckh era o que havia de melhor sobre a terra; é certo que é preciso viajar”.
 
... “Quando trabalhamos nos engenhos de açúcar e amó nos pega o dedo, cortam-nos a mão; quando queremos fugir, cortam-nos a perna: eu me encontrei nos dois casos. É a esse preço que vós comeis açúcar na Europa. Entretanto quando minha mãe me vendeu por dois escudos patagões na costa da Guiné, ela me dizia: ‘Meu filho, abençoa os nossos fetiches, adora-os sempre, eles te farão viver feliz, tens a honra de ser escravo de nossos senhores brancos, e faz com isso a fortuna do teu pai e da tua mãe’. Lamentável! Não sei se fiz a fortuna deles, mas eles fizeram a minha. Os cães, os macacos e os papagaios são mil vezes menos infelizes que nós. Os fetiches holandeses que me converteram me dizem todos os domingos que somos todos filhos de Adão, brancos e negros. Eu não sou genealogista, mas, se esses pregadores estão dizendo a verdade, somos todos primos provindos de germanos. Ora, haveis de concordar que não se pode tratar os parentes de maneira mais horrível”.
 
“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo”. “O que é otimismo?”, dizia Cocambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal...”.
 
“Deveis ter”, disse Cândido ao turco, “uma vasta e magnífica terra?” “Tenho apenas uns vinte alqueires”, respondeu o turco; “eu os cultivo com meus filhos; o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade”.
 
“mas é preciso cultivar o nosso jardim”.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Livraria Limítrofe - O adeus

Medeiros, Alfer. Livraria Limítrofe – O adeus. Editora Estronho. Belo Horizonte / MG; 2011; 190 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Alexandre J. F. Medeiros (Alfer Medeiros), é profissional de TI. Além de Livraria Limítrofe já participou dos projetos UFO – Contos Não-Identificados, Fúria Lupina Brasil e Asgard – A saga dos nove reinos, Cursed City.
 
Dados da obra:

Livraria Limítrofe trata-se de um espaço diferente, que não tem endereço fixo e raramente é encontrada mais de uma vez. Ela surge no momento certo e oferece às pessoas comuns, amantes da leitura, outras nem tanto, o ambiente perfeito para atender suas necessidades. Pode-se dizer que é uma livraria personalizada, em que cada leitor encontrará livros de autores preferidos, acomodados em um ambiente de dimensões grandes ou pequenas, com decoração característica das obras.

Passagens:

Daqui você verá prateleiras de livros cobrindo todas as paredes deste piso térreo, e as obras nelas contidas foram selecionadas por mim e pela minha senhora. Você virá a conhecê-la em momento oportuno. Não me canso de apreciar a visão das belas lombadas coloridas formando esse arco-íris literário, um convite à boa leitura. Quando saio dos meus aposentados e adentro este recinto, tenho a impressão de ser saudado por um grande sorriso, vindo de todos os lados.

Ali traços carregados e repletos de tons de cinza e negro representavam uma cena de dramaticidade intensa. Homens com roupas militares fitavam impassivelmente uma mulher ajoelhada, abraçada aos seus dois filhos, um menino e uma menina. Seu rosto era uma máscara modelada sobre puro sofrimento. Ela deveria tomar uma decisão terrível, e isso a consumia de uma maneira profunda, machucava a alma. Seu desespero era quase palpável. Rapidamente Victoria dobrou esse lado da página, ocultando esta última ilustração e calando o choro da mãe. Lágrimas insinuavam-se novamente nos olhos da mulher sentada na cama e os cantos da sua boca direcionavam-se para baixo, aliados a um beicinho bem sutil.
Algumas vezes na vida, temos de tomar decisões parecidas com a dela, não é mesmo? – falou, com a voz embargada, segurando minha mão.  – Onde todos saem perdendo.
 
A utilização foi um pouco tímida no início, por pura falta de prática. Ao me acostumar com os comandos simples de seleção de obras e de navegação pelo conteúdo, pude notar que o aparelho era prático e agradável aos olhos. Claro, eu nunca trocaria o bom e velho livro de papel por esse aparato, mas pensei nessa nova geração de leitores, uma garotada já nascida em meio ao ambiente totalmente informatizado. Para eles, seria supernatural utilizar um desses leitores eletrônicos para apreciação de obras literárias.

Ah, então foi por isso que eles estavam tão paradões no início da conversa, e desembestaram a falar repentinamente! Beleza! Foi muito divertido vir até aqui. Até mais, amigo. E foi isso! Bacana, né? Sempre que posso, pego um dos livros que ganhei na loja e leio um continho, imaginando o próprio escritor narrando o texto para mim. Você enxerga o livro de outra forma, quando conhece pessoalmente o autor da obra!

Antes de ir, gostaria de deixar três citações, para que elas sirvam de inspiração nos seus dias de agradável labuta literária:
“Uma vida não basta ser apenas vivida. Também precisa ser sonhada”.
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
“Não entre em pânico!”

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O advogado do diabo

West, Morris. O advogado do diabo. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro / RJ; 1963; 302 páginas.

Breve relato do autor:
 
Morris Langlo West foi um escritor australiano, filho de um caixeiro-viajante e de uma irlandesa católica. Formou-se em 1937 na Universidade de Melbourne e trabalhou muitos anos como professor. Passou 12 anos de sua vida em um mosteiro, mas não chegou a se ordenar padre. Em seus livros, West revela seus interesses no catolicismo romano, falando inclusive de muitos papas, e revela também um interesse na política internacional. Escreveu O advogado do diabo, As sandálias do pescador e mais 25 livros, além de peças de teatro e programas de rádio.
 
Dados da obra:

O advogado do diabo foi publicado em 1959 com uma adaptação cinematográfica produzida em 1978. Na trama, durante processo de canonização da Igreja Católica o advogado do diabo, padre que vai investigar a vida do suposto “santo”, visita uma cidade na região pobre do sul da Itália e descobre alguns problemas que poderiam impedir a canonização, mas pondera sobre o bem que poderia fazer para a comunidade. Por outro lado, sabendo que está prestes a morrer de uma doença muito grave, o padre enfrenta sérios conflitos pessoais para tomar a sua decisão.

Passagens:

Agora, estava sentado, ao sol, num banco de jardim, com o ar pleno de primavera e o futuro apenas uma breve, vazia perspectiva; a derramar-se na eternidade. Certa vez, em seus dias de estudante, ouviu um velho missionário pregar acerca da ressurreição de Lázaro: como Cristo se detivera diante do sepulcro selado e ordenara que o mesmo fosse aberto, para que o cheiro da podridão se desfizesse no ar parado e seco do verão; como Lázaro, atendendo ao chamado, saíra para fora, a tropeçar na mortalha, e ficara de pé, a piscar sob o sol. Que sentira ele naquele momento, indagara o velho? Que preço havia ele pago por aquela volta ao mundo dos vivos? Acaso continuou para sempre, depois, estropiado, de modo que cada rosa lhe cheirasse a podridão e cada jovem dourada lhe parecesse um esqueleto desengonçado? Ou caminhou cheio de deslumbramento diante da novidade das coisas o coração terno de piedade e amor pela família humana?

Olhando-os, Blaise Meredith sentiu-se tocado pela vaga nostalgia de um passado que jamais lhe pertencera. Que conhecera ele do amor exceto uma definição teológica e uma culpa sussurrada no confessionário? Que significado tinham os seus conselhos diante dessa franca, erótica comunhão, que, por disposição divina, era o começo da vida e a garantia da continuidade da espécie humana? Logo, talvez naquela mesma noite, aqueles dois corpos jazeriam juntos na pequena morte da qual surgiria uma nova vida – um novo corpo, uma nova alma. Mas Blaise Meredith dormiria sozinho, com todos os mistérios do universo reduzido a um silogismo escolástico dentro do seu crânio. Quem estava certo – ele ou eles? Quem se aproximava mais da perfeição do desígnio divino? Eugênio Marotta tinha razão. Ele se afastara do convívio da família humana. Aquelas duas criaturas arremetiam para a frente, a fim de renová-la, perpetuá-la.

Meredith sentiu-se comovido. O cru dilema em que se encontrava o homem era assustador. Pela primeira vez em sua vida sacerdotal, ele começou a compreender o problema real do arrependimento, o qual não é o problema do pecado em si, mas as consequências que proliferam dele, como parasitos numa árvore. A árvore não tem outro remédio senão continuar a alimentar o parasito, adquirindo beleza dele, mas, ao mesmo tempo, morrendo lentamente, à falta de um jardineiro esclarecido...

... – Aceitarei o “se” – respondeu Meredith, com tranquilo interesse. – Se não existe Deus, então o universo é um caos sem sentido algum. Vive-se nele tão longa e agradavelmente quanto se puder, tirando-se o melhor proveito dele. O senhor pode apanhar o seu Paolo e desfrutá-lo... se a polícia e os costumes sociais permitirem. Nada tenho a discutir com o senhor. Mas se existe um Deus – e creio que existe – então...

... Cristo fizera bispos e um Papa – mas jamais um cardeal. A própria palavra contém mais do que uma sugestão de ilusão: cardo, gonzo. Como se eles fossem os gonzos sobre os quais foram colocadas as portas do céu. Talvez pudessem ser gonzos, mas os gonzos eram metal inútil, a menos que firmemente gravados na estrutura viva da Igreja, cujas pedras eram os pobres, os humildes, os ignorantes, os que pecavam e os que amavam, os esquecidos dos príncipes, mas jamais os esquecidos de Deus.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Ensaio sobre a lucidez

Saramago, José. Ensaio sobre a Lucidez Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2004; 325 páginas.

Breve relato do autor:

José Saramago foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 e o Prêmio Camões.

Dados da obra:

O livro retoma personagens de “Ensaio sobre a cegueira”, como uma continuação deste. Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, verifica-se uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia - o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.  A trama narra as providências de governo, polícia e imprensa para entender as razões da "epidemia branca" - ações estas que levam rapidamente a um devaneio autoritário -, o autor faz uma alegoria da fragilidade dos rituais democráticos, do sistema político e das instituições que nos governam.

Passagens:

Os títulos de abertura atraíam a atenção dos curiosos, eram enormes, garrafais, outros nas páginas inferiores, de tamanho normal, mas todos pareciam ter nascido da cabeça de um mesmo gênio da síntese titulativa, aquela que permite dispensar sem remorso a leitura da notícia que vem a seguir. Havia-os sentimentais como A Capital Amanheceu Órfã, irônicos como A Castanha Rebentou Na Boca Dos Provocadores ou O Voto Branco Saiu-Lhes Preto, pedagógicos como O Estado Dá Uma Lição À Capital Insurrecta, vingativos como Chegou A Hora do Ajuste De Contas, proféticos como Tudo Será Diferente A Partir De Agora ou A Partir De Agora Nada Será Igual, alarmistas como A Anarquia À Espreita ou Movimentações Suspeitas Na Fronteira, retóricos como Um Discurso Histórico Para Um Momento Histórico, bajuladores como A Dignidade Do Presidente Desafia A Cidade, objectivos como A Retirada Dos órgãos De Poder Fez-Se Sem Incidentes, radicais como A Câmara Municipal Deve Assumir Toda A Autoridade, tácticos como A Solução Está Na Tradição Municipalista. Referências à estrela maravilhosa, a dos vinte e sete braços de luz, foram poucas e mesmo essas metidas a trouxe-mouxe no meio das notícias, sem a graça atractiva de um título, ainda que fosse irônico, ainda que fosse sarcástico, do gênero E Ainda Se Queixam De Que A Electricidade Está Cara.

O editorial foi lido, a rádio repetiu as passagens principais, a televisão entrevistou o director, e nisto se estava quando, meio-dia exacto era, de todas as casas da cidade saíram mulheres armadas de vassouras, baldes e pás, e, sem uma palavra, começaram a varrer as testadas dos prédios em que viviam, desde a porta até o meio da rua, onde se encontravam com outras mulheres que, do outro lado, para o mesmo fim e com as mesmas armas, haviam descido. Afiram os dicionários que a testada é a parte de uma rua ou estrada que fica à frente de um prédio, e nada há de mais certo, mas também dizem, dizem-no pelo menos alguns, que varrer a sua testada significa afastar de si alguma responsabilidade ou culpa. Grande engano o vosso, senhores filólogos e lexicólogos distraídos, varrer a sua testada começou ser precisamente o que estão a fazer agora estas mulheres da capital, como no passado também o haviam feito, nas aldeias, as suas mães e avós, e não o faziam elas, como o não fazem estas, para afastar de si uma responsabilidade, mas para assumi-la. Possivelmente foi pela mesma razão que ao terceiro dia saíram à rua os trabalhadores de limpeza. Não traziam uniformes, vestiam à civil. Disseram que os uniformes é que estavam em greve, não eles.

É interessante como levamos todos os dias da vida a despedir-nos, dizendo e ouvindo dizer até amanhã, e, fatalmente, em um desses dias, o que foi último para alguém, ou já não está aquele a quem o dissemos, ou já não estamos nós que o tínhamos dito. Veremos se neste amanhã de hoje, a que também costumamos chamar o dia seguinte, encontrando-se uma vez mais o presidente da câmara e o seu motorista particular, serão eles capazes de compreender até que ponto é extraordinário, até que ponto foi quase um milagre terem dito até amanhã e verem que se cumpriu com certeza o que não havia sido mais que uma problemática possibilidade.

Brancoso fui, brancoso não serei, que me perdoe a pátria, que me perdoe o rei.

... Tem de haver uma cabeça, isto não são movimentos que se organizem por si mesmos, a geração espontânea não existe, e muito menos em acções de massa com esta envergadura, Não tinha sucedido até hoje, Quer então dizer que não acredita que tenha sido espontâneo o movimento do voto em branco, É abusivo pretender inferir uma coisa da outra, Tenho a impressão de que sabe muito mais deste assunto do que quer fazer parecer, Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos...

O que o senhor primeiro-ministro crê, pelos vistos, é algo parecido à ideia de que o que faz que a morte exista é o nome que tem, que as coisas não têm existência real se não tivermos um nome para lhes dar, Há inúmeras coisas de que desconheço o nome, animais, vegetais, instrumentos e aparelhos de todas as formas e tamanhos e para todas as serventias, Mas sabe que o têm, e isso dá-lhe tranquilidade. Estamos a afastar-nos do assunto, Sim senhor primeiro-ministro, afastamo-nos do assunto, eu só disse que há quatro anos estivemos cegos e agora digo que provavelmente cegos continuamos.

Neste caso, permita-me que o interrompa, senhor primeiro-ministro, quero que fique claro que a responsabilidade das mudanças de lugar e de sentido das minhas é unicamente sua, eu não meti para aí prego nem estopa, Digamos que pões a estopa e eu contribuí com o prego, e que a estopa e o prego juntos me autorizam a afirmar que o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutivo como a outra, Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou.

... E não tem medo de que o café que lhe vou trazer seja já um passo no caminho da corrupção, Lembro-me de lhe ter ouvido que isso só acontece ao terceiro café, Não, o que eu disse é que com o terceiro café fica consumado de vez o processo corruptor, o primeiro abriu a porta, o segundo segurou-a para que o aspirante à corrupção entrasse sem tropeçar, o terceiro fechou-a definitivamente, ...

... Olhava-me simplesmente a direito, de frente, com o seu único olho, como se estivesse a ver-me por dentro, Ilusão sua, Não senhor comissário, a partir de agora fiquei a saber que um olho vê melhor que dois porque, não tendo o outro para o ajudar, terá de fazer o trabalho todo, Talvez seja por isso que se diz que na terra dos cegos quem tem um olho é rei ...

... Posso fazer uma pergunta, albatroz, Faça-a que eu responderei, papagaio-do-mar, sempre fui bom a dar respostas, Que acontecerá se não se encontrarem provas da culpabilidade, O mesmo que aconteceria se não se encontrassem provas da inocência, Como devo entendê-lo, albatroz, Que há casos em que a sentença já está escrita antes do crime...

... Uma quadrilha é um grupo, Sim, albatroz, mas nem todos os grupos são quadrilhas.

Por que está a fazer isto por nós, por que nos ajuda, Simplesmente por causa de uma pequena frase que encontrei num livro, há muitos anos, e de que me tinha esquecido, mas que me regressou à memória num destes dias, Que frase, Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim...

Desculpe a rudeza da pergunta, quem é o senhor, O meu nome está aí a assinar a carta, Sim, bem vejo, há aqui um nome, mas um nome não é mais que uma palavra, não explica nada sobre quem é a pessoa.

... É como a vida, minha filha, começa não se sabe para quê e termina não se sabe porque...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Versos para os pais lerem aos filhos...

Letria, José Jorge; Letria, André. Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar. Editora Periópolis. São Paulo / SP; 2010; 48 páginas.

Breve relato dos autores:
 
José Jorge Letria e André Letria são portugueses e trabalham juntos há um bom tempo. Jorge Letria tem dezenas de livros publicados em diversas áreas, sendo um dos mais destacados nomes da literatura infanto-juvenil em Portugal. André Letria é ilustrador de livros infantis desde 1992 e tem participado de diversas exposições nacionais e internacionais. Recebeu o Prêmio Nacional de Ilustração em 1999, com o livro Versos de Fazer Ó-Ó, de José Jorge Letria.
 
Dados da obra:
 
O livro resgata aquele hábito salutar de ler em voz alta – e em família – para as crianças e traz versos repletos de ternura e imaginação, acompanhados de belíssimas ilustrações de cores surpreendentes e que evocam um realismo mágico. As rimas dão cadência e ritmo aos versos voltados para a beleza da natureza, a descoberta das palavras, o mundo da fantasia e o prazer da leitura.
 
Passagens:
 
Cada palavra que leres
há de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
Quando te pões a falar.
 
Cada palavra já lida,
seja em Lisboa ou em Tóquio,
há de deixar-se guiar
pelo nariz do Pinóquio,
E mesmo se for mentira
aprenderá com o seu guia
o que vale para quem lê
esse dom da fantasia.
 
Cada palavra que aprendes
quando começas a ler
é o mundo a conversar
com quem o quer conhecer.
Cada palavra que juntas
àquelas que já sabias
é uma luz que se acrescenta
à que ilumina os teus dias.
 
Estes versos em que ensaias
o gosto que tens de ler
são os troncos em flor
da alegria de aprender.
A leitura é uma escada
feita à tua medida:
cada palavra sonhada,
cada palavra aprendida
será parente chegada
da secreta melodia
que na boca de quem lê
tem nome de Poesia.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Notícia de um sequestro

Marquez, Gabriel García. Notícia de um sequestro. Record. Rio de Janeiro / RJ; 1996; 318 páginas.

Breve relato do autor:

É um escritor, jornalista, editor, ativista e político colombiano. Recebeu o Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, que entre outros livros inclui o aclamado Cem Anos de Solidão. Responsável por criar o realismo mágico na literatura latino-americana.

Dados da obra:

Livro-reportagem em Marquez relata o drama de sequestros ocorridos na Colômbia em 1990, por meio de depoimentos de dezenas de pessoas envolvidas. Mesclando histórias reais com ficção, o livro tem o objetivo de mostrar as diversas facetas da dramática situação vivida na Colômbia, especificamente a guerra do tráfico de drogas.

Passagens:

Maruja abriu os olhos e lembrou um velho ditado espanhol: “Que Deus nos dê o que somos capazes de suportar.” Haviam transcorrido dez dias desde o sequestro, e tanto Beatriz como ela começavam a se acostumar a uma rotina que na primeira noite parecia inconcebível. Os sequestradores haviam repetido com frequência que aquela era uma operação militar, mas o regime de cativeiro era pior que o carcerário. Só podiam falar para questões urgentes e sempre em sussurros. Não podiam levantar do colchão que servia de cama comum, e tudo o que necessitassem devia ser pedido aos dois vigias que não as perdiam de vista nem quando estavam dormindo: licença para se sentar, para esticar as pernas, para falar com Marina, para fumar. Maruja tinha que tapar a boca com um travesseiro para amortecer os ruídos da tosse.

Diana Turbay Quintero tinha, como seu pai, um sentido intenso e apaixonado do poder e uma vocação de liderança que determinaram sua vida. Cresceu entre os grandes nomes da política, e era difícil que a partir de então não fosse essa a sua perspectiva do mundo. “Diana era um homem de Estado – disse uma amiga que a compreendeu e amou. – E a maior preocupação de sua vida era uma obstinada vontade de serviço ao país.” Mas o poder – como o amor – tem dois gumes: exercemos e padecemos. Ao mesmo tempo que gera um estado de levitação pura, gera também seu avesso: a busca de uma felicidade irresistível e fugidia, só comparável à busca de um amor idealizado, que se anseia mas se teme, se persegue mas não se alcança. Diana sofria isso com uma voracidade insaciável de saber tudo, de estar a par de tudo, de descobrir o por quê e o como das coisas e a razão de sua vida. Alguns que conviveram com ela e a amaram de perto perceberam isso nas incertezas de seu coração, e pensam que muito poucas vezes ela foi feliz.

 – Você não imagina como foi triste ver aquela senhora jogada no capim, coitada – disse a florista. – Precisava só ver a sua roupa íntima, seu jeito de grande dama, seu cabelo branco, as mãos tão finas e com as unhas tão bem cuidadas.

A distribuidora, alarmada pela sua prostração, deu a ela um analgésico para a dor de cabeça, aconselhou-a a não pensar em coisas tristes e, sobretudo, a não sofrer por problemas alheios. Nem uma nem outra perceberiam até uma semana mais tarde que haviam vivido um episódio inverossímil. Pois a distribuidora era Marta de Pérez, a esposa de Luis Guilhermo Pérez, filho de Marina.

Uma droga mais daninha que as mal chamadas em espanhol de heroicas se introduziu na cultura nacional: o dinheiro fácil. Prosperou a ideia de que a lei é o maior obstáculo para a felicidade, que aprender a ler e a escrever não serve para nada, que se vive melhor e com mais segurança como delinquente do que como pessoa de bem. Em síntese: o estado de perversão social próprio de toda guerra incipiente e intermitente.

Com a fortuna e a clandestinidade, Escobar tornou-se dono do território e se transformou numa lenda que, das sombras, dominava tudo. Seus comunicados de estilo exemplar e cautelas perfeitas chegaram a se parecer tanto com a verdade que se confundiam com ela. No auge de seu esplendor foram erguidos altares com seu retrato e lhe dedicaram círios nas comunidades de Medellín. Chegou-se a dizer que fazia milagres. Nenhum colombiano em toda a história havia tido e exercido um talento como o dele para condicionar a opinião pública. Nenhum outro teve maior poder de corrupção. A condição mais inquietante e devastadora de sua personalidade era que carecia por completo da indulgência para distinguir entre o bem e o mal.

A imagem de Marina caminhando às cegas com o capuz ao contrário para um sítio imaginário ia perseguir Maruja por muitas noites de insônia. Mais do que a própria morte, o que ela temia era a lucidez do momento final. A única coisa que lhe dava algum consolo foi a caixa de comprimidos soníferos que tinha economizado como se fossem pérolas preciosas, para engolir um punhado antes de se deixar arrastar ao matadouro.

Pela primeira vez desde o sequestro Villamizar foi a uma festa de amigos, e ninguém entendeu que estivesse tão contente com alguma coisa que afinal não passava de uma promessa vaga como tantas outras de Pablo Escobar. Àquelas horas o padre García Herreros tinha dado a volta completa por todos os noticiários do país – vistos, ouvidos ou escritos. Pediu que fossem tolerantes com Escobar. “Se não o frustrarmos, ele se tornará um grande construtor da paz”, dizia. E acrescentava, sem citar Rousseau: “Os homens em sua intimidade são todos bons, embora algumas circunstâncias os tornem malignos.” E no meio de um emaranhado de microfones, disse sem maiores reservas:
– Escobar é um homem bom.

... Quando o helicóptero pousou no prado intacto, destacaram-se do grupo uns quinze seguranças que caminharam ansiosos até o helicóptero, ao redor de um homem que não podia passar despercebido. Tinha o cabelo comprido até os ombros, uma barba muito negra, espessa e áspera, que chegava até o peito, e a pele parda e curtida por um sol de páramo. Era rechonchudo, usava tênis e uma jaqueta azul-claro de algodão ordinário, e se movia com uma andadura fácil e uma tranquilidade arrepiante. Villamizar reconheceu-o à primeira vista só porque era diferente de todos os homens que havia visto na vida.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A menina que roubava livros

Zusak, Markus. A menina que roubava livros. Intrínseca. Rio de Janeiro / RJ; 2010; 478 páginas.
 
Breve relato do autor:

Markus Zusak é um jovem escritor australiano.

Dados da obra:

 A história se passa entre 1939 a 1943 e é narrada pela morte. A menina é Liesel, enviada pela mãe, junto com o irmão, para uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai roubar ao longo dos anos. Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade. A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História.

Passagens:
 
Quando viesse a escrever sua história, ela se perguntaria exatamente quando os livros e as palavras haviam começado a significar não apenas alguma coisa, mas tudo. Teria sido ao pôr os olhos pela primeira vez na sala com estantes e mais estantes deles? Ou quando Max Vandenburg chegara à Rua Himmel, carregando as mãos cheias de sofrimento e o Mein Kampf de Hitler? Teria sido durante a leitura nos abrigos? Na última parada para Dachau? Teria sido A Sacudidora de Palavras? Talvez nunca houve uma resposta exata sobre onde e quando isso havia ocorrido...
 
O som do acordeão, na verdade, era também o anúncio da segurança. Do dia. Durante o dia, era impossível ela sonhar com o irmão. Liesel sentia sua falta e, muitas vezes, chorava no banheiro minúsculo, o mais baixo possível, mas também ficava contente por estar acordada. Na primeira noite com os Hubermann, ela havia escondido seu último vínculo com o irmão – O Manual do Coveiro – embaixo do colchão, e vez por outra o tirava de lá e o segurava. Fitando as letras da capa e tocando o texto impresso na parte interna, ela não fazia a menor ideia do que o livro dizia. A questão é que o assunto do livro não tinha mesmo importância. O mais importante era o que ele significava.
 
... Segundo ela sentia um orgulho evidente do papel de Hans Hubermann em sua educação. Talvez você não imagine, escreveu, mas não foi tanto a escola que me ajudou a ler. Foi papai. As pessoas acham que ele não é inteligente, e é verdade que ele não lê muito depressa, mas eu não tardaria a saber que as palavras e a escrita tinham salvado sua vida, uma vez. Ou, pelo menos, as palavras e um homem que lhe ensinara o acordeão...

Não é hora de atenção parcial, nem de virar as cosas e ir dar uma olhada no fogão – porque, quando a menina que roubava livros roubou seu segundo livro, não só houve muitos fatores implicados em sua ânsia de fazê-lo, como o ato de furtá-lo desencadeou o ponto crucial do que estava por vir. Isso lhe proporcionaria uma abertura para o roubo contínuo de livros. Inspiraria Hans Hubermann a conceber um plano para ajudar o lutador judeu. E mostraria a mim, mais uma vez, que uma oportunidade conduz diretamente a outra, assim como o risco leva a mais risco, a vida, a mais vida, e a morte, a mais morte.
 
A sala foi encolhendo sem parar, até que a menina que roubava livros pôde tocar nas estantes, a poucos passinhos de distância. Correu o dorso da mão pela primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de pés em correria. Ela usou as duas mãos. Passou-as correndo. Uma estante encostada em outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguçada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada no meio do cômodo, passou vários minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras.
Em quantos livros tinha tocado?
Quantos havia sentido?

A mulher do prefeito, depois de deixar a menina entrar pela quarta vez, sentou-se à escrivaninha, simplesmente olhando para os livros. Na segunda visita, dera permissão para que Liesel tirasse um deles da estante e o folheasse, o que levara a outro e mais outros, até que havia uma dúzia de livros grudados nela, ou presos embaixo de um braço, ou na pilha que subia cada vez mais na mão restante.

Por algum tempo, ela vagou para dentro e para fora do sono, já não sabendo ao certo se havia sonhado com a entrada de Max.
De manhã, ao acordar e ser virar na cama, viu as páginas descansando no chão. Estendeu a mão e pegou-as, escutando o papel encrespar-se em suas mãos de manhãzinha.
Toda a minha vida, tive medo de homens velando sobre mim...
Ao virá-las, as páginas eram barulhentas, feito estática em volta da história escrita.
Três dias, disseram-me... E o que encontrei ao acordar?
Lá estavam as páginas apagadas de Mein Kampf, amordaçadas, sufocando sob a tinta enquanto eram viradas.
Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci...

Antes que entrassem em suas respectivas casas, Rudy parou por um instante e disse:
Até logo, Saumensch – e riu. – Boa noite, roubadora de livros.
Era a primeira vez que Liesel se via marcada por seu título, e não pôde esconder que isso lhe agradou muito. Como nós dois sabemos, ela já tinha furtado livros, mas, no fim de outubro de 1941, a coisa se tornou oficial. Nessa noite, Liesel Meminger transformou-se verdadeiramente na menina que roubava livros.
 
Digo o nome d´Ele na vão tentativa de compreender. “Mas não é sua função compreender.” Essa sou eu respondendo. Deus nunca diz nada. Você acha que é a única pessoa a quem Ele nunca responde? “Sua tarefa é...” E eu paro de me escutar, porque para dizê-lo curto e grosso, eu canso a mim mesma. Quando começo a pensar desse jeito, fico inteiramente exausta e não tenho o luxo de me entregar à fadiga. Sou obrigada a continuar, porque, embora isso não se aplique a todas as pessoas da Terra, é verdade para a vasta maioria: a morte não espera por ninguém – e, quando espera, em geral não é por muito tempo.
 
Rosa soltou-a e, para se reconfortar, para isolar a algazarra do porão, Liesel abriu um de seus livros e começou a ler. O livro no topo d pilha era O Assobiador, e ela falou em voz alta, para ajudar sua própria concentração. O parágrafo inicial entorpeceu-se em seus ouvidos.
– O que você disse? – rugiu a mãe, mas Liesel a ignorou. Continuou concentrada na primeira página.
Quando ela virou a página dois, foi Rudy quem notou. Atentou diretamente para o que Liesel estava lendo e deu um tapinha no irmão e nas irmãs, dizendo-lhes para fazerem o mesmo. Hans Hubermann aproximou-se e convocou a todos e, em pouco tempo, uma quietude começou a escoar pelo porão apinhado. Na página três, todos estavam calados, menos Liesel.
A menina não se atreveu a levantar os olhos, mas sentiu os olhares assustados prenderem-se a ela, enquanto ia puxando as palavras e exalando-as. Uma voz tocava as notas dentro dela. Este é o seu acordeão, dizia.

O som da página virada cortou-os ao meio.
Liesel continuou a ler.
Arrancou uma página do livro e a rasgou ao meio.
Depois, um capítulo.
Em pouco tempo, não restava nada senão tiras de palavras, derramadas feito lixo entre suas pernas e em toda a sua volta. As palavras. Por que tinham que existir? Sem elas, não haveria nada disso. Sem as palavras, o Fuhrer não era nada. Não haveria prisioneiros, claudicantes, nem necessidade de consolo ou de truques mundanos para fazer com que nos sentíssemos melhor.
De que adiantavam as palavras?
Dessa vez ela o disse em voz alta, para a sala iluminada de laranja.
- De que servem as palavras?
 
ÚMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA
Os seres humanos me assombram.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A máquina de fazer espanhóis

Mãe, Valter Hugo. A máquina de fazer espanhóis. Cosac Naify. São Paulo / SP; 2011; 256 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Valter Hugo Mãe é um escritor nascido em Angola, de nacionalidade portuguesa. Atua também como editor, artista plástico e cantor português.
 
Dados da obra:
 
A história gira em torno de António Jorge da Silva, um barbeiro que acaba de completar 84 anos, e depois de perder a mulher, é entregue a um asilo. O personagem, que viveu sob o peso de Salazar, nos tempos em que as ditaduras regiam tudo, coloca o passado e suas ações em perspectiva, não sem notar que o pessimismo sobre o papel do país no mundo exacerbou-se ainda mais. Portugal se transformou numa máquina geradora de sentimento de inferioridade, uma máquina especializada em produzir entre os nascidos no país à vontade de deixá-lo.
 
Passagens:
 
O lar não suporta mais do que noventa e três pessoas, e, para que uma entre, outra tem de sair. a saída é dolorosa mas rápida. rodam-se alguns velhos pelos quartos fora. eventualmente um que esteja acamado vai para a ala esquerda, já muito vizinho dos mortos, e outro entrará de novo no quarto vago com vista para o jardim. é frequente que os que sobrevivem chorem diante das portas dos quartos, sabendo que no interior já não estão os anteriores inquilinos. é frequente que, nas primeiras semanas, alguém rejeite o novo residente, como se a urgência de este entrar operasse no cosmos uma pressa em tirar a vida ao outro, e é como se isso fosse culpável.
 
... a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabemos que, na distração cada vez maior, na perda de reflexos e de agilidade mental, fazemos coisas sem saber e não as fazemos por estupidez. Fazemos por descoordenação entre o que está certo e o que nos parece certo e até sabemos que isso de certo ou errado é muito relativo. É tudo mais forte do que nós.
  
... a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida. um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido. tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta nos de uma grande paixão.
  
quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não de nós próprios, e não exatamente do regime e menos ainda de salazar.
 
... quem fomos há de sempre estar contido em quem somos, por mais que mudemos ou aprendamos coisas novas.
  
... podíamos ir observando o que faziam e diziam os outros velhos. observávamos e sentíamos-nos distantes e, ao mesmo tempo, presos ali como com ferros. caramba, uma sensação de impotência terrível, a de estarmos sentados numas cadeiras quietas, quietos, a sermos apanhados à bruta pela idade, a sermos apanhados à bruta pelas doenças e pelo cínico de quem ainda é jovem e manda em tudo e nos menospreza como gente a ficar deficiente. progressivamente, como se a glória da vida se consumasse na maior das humilhações. observávamos os outros velhos e não sabíamos muito sobre as suas experiências. mas víamos-lhes os rostos e estes espelhavam as mesmas dores que os nossos.
 
depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade.
 
nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. Não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas.